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História · Estética

Da cura à beleza

Quatro mil anos de estética, e o que eles explicam sobre o seu trabalho hoje

Por Daniel Guimarães · OAB/PE nº 39.703 · 28/09/2026 · leitura de 6 minutos

Em resumo: a estética nasceu colada à saúde. O delineador egípcio talvez protegesse os olhos, as receitas de beleza romanas usavam os ingredientes dos médicos, e a toxina botulínica e o primeiro bioestimulador foram aprovados para tratar doença antes da beleza. Até a briga sobre quem pode fazer o quê já chegava aos tribunais americanos nos anos 1950. Entender essa trajetória ajuda a explicar as regras de hoje e a trabalhar com mais segurança.

A linha do tempo

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  1. c. 2000–1200 a.C.
    Produto

    O delineador egípcio era química

    Pós de kohl guardados no Louvre contêm compostos de chumbo que não existem na natureza: foram fabricados. Um estudo de 2010 sugere que, em dose baixa, eles podiam estimular defesas da pele contra infecção.

    Walter et al., Nature, 1999; Tapsoba et al., Analytical Chemistry, 2010

  2. 43 a.C.–17 d.C.
    Produto

    Em Roma, beleza e tratamento usavam a mesma receita

    O poeta Ovídio deixou receitas para o rosto. Dos 23 ingredientes, 13 aparecem nos manuais médicos romanos tanto para embelezar quanto para tratar doenças de pele.

    Ursin et al., J Cosmet Dermatol, 2020

  3. séc. II
    Produto

    O creme emulsionado tem origem médica

    A tradição atribui a Galeno o "cold cream" de cera, óleo e água de rosas, receita que atravessou a Idade Média até os boticários.

    Lipsker et al., Clin Dermatol, 2023

  4. 1882
    Técnica

    O peeling entra na medicina

    O dermatologista alemão Paul Unna usa resorcina, ácido salicílico, fenol e TCA, os agentes do peeling moderno. O alvo eram manchas e cicatrizes, não rugas.

    Brody et al., Dermatol Surg, 2000

  5. 1888
    Profissão

    O salão vira negócio replicável

    Martha Matilda Harper abre um salão em Rochester (EUA) e, a partir de 1891, cria uma rede de franquias que passou de 500 unidades.

    National Women's Hall of Fame

  6. 1902
    Mercado

    Serviço e produto próprio no mesmo balcão

    Helena Rubinstein abre seu primeiro salão em Melbourne com o creme da própria marca e, em 1905, um instituto de tratamentos: o modelo de muitas clínicas hoje.

    National Portrait Gallery (Austrália)

  7. 1930–1950
    Profissão

    Uma briga antiga sobre quem pode fazer o quê

    Nos EUA, "peeladores" sem formação médica faziam peeling de fenol, inclusive em clientes de Hollywood. Depois de processos por desfiguração, alguns foram condenados por exercício ilegal da medicina no fim dos anos 1950, e os médicos padronizaram a técnica.

    Brody et al., Dermatol Surg, 2000; Orekoya et al., BAD, 2016

  8. 1934
    Produto

    O ácido hialurônico sai de um olho de boi

    Meyer e Palmer isolam a molécula em 1934. A primeira patente de aplicação, em 1942, era para substituir a clara de ovo na panificação.

    Fakhari & Berkland, Acta Biomaterialia, 2013

  9. 1947
    Profissão

    A cosmetologia vira ciência

    Químicos cosméticos se organizam em sociedade (Nova York, 1945) e lançam revista científica própria (1947). Em 1959 surge a federação internacional.

    Journal of Cosmetic Science; IFSCC

  10. 1960
    Profissão

    O Brasil entra no mapa da cirurgia plástica

    Ivo Pitanguy cria o serviço de cirurgia plástica da Santa Casa do Rio e, em 1963, abre sua clínica.

    Indian J Plast Surg, 2016

  11. 1973
    Profissão

    Nasce a expressão "medicina estética"

    É fundada em Paris a Sociedade Francesa de Medicina Estética; em 1976, a união internacional. No Brasil, porém, medicina estética não consta da lista de especialidades do CFM, o que o STJ confirmou em 2010.

    UIME; CFM

  12. 1980
    Produto

    A toxina botulínica nasce tratando o olho

    O oftalmologista Alan Scott publica o uso da toxina no estrabismo. Em 1981, o primeiro paciente brasileiro é tratado em São Paulo.

    Scott, Ophthalmology, 1980; Souza-Dias, Arq Bras Oftalmol, 2022

  13. 1981
    Produto

    O primeiro preenchedor é um dispositivo médico

    O FDA aprova o Zyderm, de colágeno bovino, que exigia teste de alergia. Nos EUA, preenchedor é regulado desde então como dispositivo, e não como medicamento.

    FDA, PMA P800022

  14. 1983
    Técnica

    A física por trás do laser

    Anderson e Parrish publicam a fototermólise seletiva: pulsos curtos de luz atingem só o alvo daquela cor. É a base de quase todo laser e luz pulsada.

    Science, 1983

  15. 1986
    Técnica

    "Minimamente invasivo" vem da urologia

    O termo é cunhado por um cirurgião britânico para a cirurgia endoscópica. Organiza as estatísticas da estética, mas não tem definição jurídica no Brasil.

    Frampton & Kneebone, Soc Hist Med, 2017

  16. 1989
    Produto

    Toxina aprovada, mas para doença

    O FDA aprova a toxina botulínica para blefaroespasmo e estrabismo. É uma aprovação terapêutica.

    FDA, revisão BLA 761085

  17. 1992
    Técnica

    A descoberta estética da toxina

    Jean e Alastair Carruthers publicam o tratamento das rugas entre as sobrancelhas, observado durante um tratamento de blefaroespasmo.

    J Dermatol Surg Oncol, 1992

  18. 1999
    Regra

    Nasce a Anvisa

    A Lei 9.782/1999 cria a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Registros anteriores a 1999 não são "da Anvisa".

    Lei 9.782/1999

  19. 2002
    Produto

    O "botox estético" ganha data oficial

    O FDA aprova a toxina para as linhas entre as sobrancelhas em 12/04/2002 (o anúncio foi em 15/04). A aprovação vale para uma área específica.

    FDA, BLA 103000

  20. 2002
    Profissão

    O esteticista entra na CBO

    Na Classificação Brasileira de Ocupações aprovada em 2002, o esteticista aparece com o código 3221-30. É um código para estatística e registro de emprego, não uma autorização, e veio dez anos antes da Lei 12.592/2012.

    Portaria MTE 397/2002; Gessner & Silva, RIES, 2015

  21. 2003
    Produto

    O ácido hialurônico chega ao preenchimento

    O Restylane, lançado na Europa em 1996, é o primeiro preenchedor de ácido hialurônico aprovado pelo FDA, sem o risco alérgico do colágeno bovino.

    FDA, PMA P020023

  22. 2004
    Produto

    O bioestimulador também nasce tratando

    O ácido poli-L-lático (Sculptra) é aprovado para a perda de gordura facial de pessoas com HIV. O uso estético só vem em 2009.

    FDA, PMA P030050

  23. 2004
    Técnica

    O laser fracionado encurta a recuperação

    Tratar só "colunas" microscópicas da pele e preservar o resto acelera a recuperação: a lógica de "menos tempo parado".

    Manstein et al., Lasers Surg Med, 2004

  24. 2010
    Técnica

    A criolipólise vira aparelho autorizado

    Depois do estudo de 2008 sobre o resfriamento seletivo da gordura, o FDA autoriza o primeiro equipamento. É tecnologia de aparelho, não medicamento.

    FDA, De Novo DEN090002

  25. 2019
    Profissão

    Nasce a sigla HOF

    O Conselho Federal de Odontologia reconhece a harmonização orofacial como especialidade. O tema segue em discussão na Justiça, assunto do nosso próximo artigo.

    Resolução CFO 198/2019

  26. 2024
    Mercado

    O Brasil é 2º do mundo, na conta dos cirurgiões

    Na pesquisa da ISAPS, o Brasil soma 3,1 milhões de procedimentos, 75% deles cirurgias. A pesquisa só conta o que cirurgiões plásticos fazem.

    ISAPS Global Survey 2024

  27. 2025
    Mercado

    Nos EUA, a cirurgia plástica estética envelhece

    Entre os cirurgiões plásticos americanos, os procedimentos estéticos em pessoas de 18 a 25 anos caíram 9%, e em quem tem 66 anos ou mais subiram 24%. Não há dado equivalente para o Brasil.

    ASPS, relatório 2025

Da doença à beleza

A toxina botulínica e o ácido poli-L-lático não nasceram para a estética: a aprovação para tratar doença veio primeiro; a estética, anos depois, como extensão. Os preenchedores de colágeno e de ácido hialurônico, ao contrário, já chegaram com indicação estética. E cada aprovação vale para uma área específica do rosto ou do corpo: aplicar fora dela é o chamado uso fora da bula.

Toxina botulínica13 anos · 1989 → 2002Ácido poli-L-lático (Sculptra)5 anos · 2004 → 2009aprovação para doençaaprovação estética
Anos entre a primeira aprovação para doença e a aprovação estética nos EUA. Fonte: FDA.

Quando nasceu cada palavra do mercado

Toque em cada termo para ver de onde ele vem.

Cosmetologia1945–1947

Nasce como ciência de formulação, com sociedade e revista próprias. O cosmetólogo da Lei 13.643/2018 herda essa química, não a clínica.

Instituto de beleza1888–1902

Salão como franquia (Harper) e instituto que vende serviço e produto próprio (Rubinstein). O "home care" da clínica tem mais de um século.

Medicina estética1973

Expressão institucionalizada na França. No Brasil, não é especialidade médica, segundo o CFM e decisão do STJ de 2010.

Minimamente invasivo1986

Termo da cirurgia endoscópica britânica. Não tem definição jurídica no Brasil.

Injetáveis1981 e 1989

No FDA, duas "caixas" desde o início: preenchedor é dispositivo médico; toxina é medicamento biológico. No Brasil a Anvisa também separa dispositivos médicos de medicamentos, por isso as regras diferem.

Bioestimulador2004

Palavra de mercado: nos registros do FDA, o produto aparece como implante dérmico. Entrou tratando lipoatrofia, não rugas.

HOF2019

Sigla brasileira, criada como especialidade odontológica pelo CFO.

Estética regenerativaanos 2020

Sem definição consolidada. Uma revisão sistemática de 2024 aponta falta de rigor científico: cuidado com promessas.

O Brasil no mapa, com uma ressalva

O Brasil aparece como o segundo país do mundo em procedimentos estéticos, atrás só dos Estados Unidos, com 3,1 milhões em 2024. O número é da ISAPS, a sociedade internacional de cirurgia plástica, e só conta o que cirurgiões plásticos fazem: 75% são cirurgias. Tudo o que dermatologistas e outros médicos, dentistas, biomédicos, farmacêuticos, enfermeiros e esteticistas realizam fica de fora. Ou seja: o ranking mede a cirurgia plástica brasileira, não o seu mercado, que é maior e não tem, até onde encontramos, estatística oficial.

O que essa história muda no seu dia a dia

Saiba em que "caixa" está o seu produtoCosmético, dispositivo médico ou medicamento: cada categoria tem registro, bula e regras de uso próprias.
Respeite a indicação aprovadaAntes de tudo, confirme que a sua profissão pode aplicá-lo. A aprovação vale para uma finalidade e uma área; fora dela, é uso fora da bula, que fica sob a responsabilidade de quem aplica.
Documente a sua formaçãoA disputa sobre competência é antiga e continua viva. Diplomas, cursos e registros organizados mostram, a qualquer fiscalização, em que base você atua.
Desconfie de rankings e promessasEstatística sem método e termos sem definição, como "regenerativa", pedem cautela antes de ir para o seu Instagram.

A história das regras, da Lei do Esteticista às resoluções dos conselhos, é tema do nosso próximo artigo. Enquanto isso, pergunte à Belexa.

Fontes e método

Pesquisa em fontes primárias e acadêmicas, conferida em 28/09/2026: FDA (bases PMA, De Novo e revisões de aprovação), Lei 9.782/1999, Resolução CFO 198/2019, ISAPS Global Survey 2024, ASPS 2025, Nature (1999), Analytical Chemistry (2010), Journal of Cosmetic Dermatology (2020), Clinics in Dermatology (2023), Dermatologic Surgery (2000), Acta Biomaterialia (2013), Journal of Cosmetic Science, IFSCC, Indian Journal of Plastic Surgery (2016), UIME, CFM, Ophthalmology (1980), Arquivos Brasileiros de Oftalmologia (2022), Science (1983), Social History of Medicine (2017), Journal of Dermatologic Surgery and Oncology (1992), Lasers in Surgery and Medicine (2004 e 2008), National Women's Hall of Fame, National Portrait Gallery (Austrália), Portaria MTE 397/2002, Gessner & Silva (RIES, 2015), Orekoya et al. (British Association of Dermatologists, 2016) e STJ, Segunda Turma (2010), conforme noticiado pelo CFM. Datas divergentes entre fontes foram registradas; datas de confiabilidade baixa ficaram de fora. Os números da ISAPS e da ASPS vêm de sociedades de cirurgia plástica e só refletem o trabalho dos seus membros.

Informação geral, sem promessa de resultado. Cada caso exige análise própria.